Grande ABC busca retomar liderança na indústria automotiva com foco em carros elétricos
Ciesp São Bernardo propõe comitê de mobilidade elétrica para reposicionar a região diante da chegada de novas montadoras e tecnologias.
O Grande ABC construiu sua identidade em torno das montadoras que ali se instalaram desde os anos 1950, mas a pergunta que ronda empresários, trabalhadores e o poder público local hoje é outra: a região consegue se reinventar a tempo de não perder espaço na transição para os veículos elétricos? Foi para responder a essa inquietação que o Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo) de São Bernardo do Campo propôs a criação de um comitê temático de mobilidade elétrica, reunindo setor produtivo, universidades e centros de formação, segundo informou o Diário do Grande ABC. A iniciativa surge em um momento em que o país já conta com mais de 600 mil veículos eletrificados em circulação, um mercado que exige mão de obra qualificada e novas cadeias de fornecimento, e que pode definir se o ABC continuará no centro do mapa automotivo brasileiro.
Como nasceu a proposta do comitê de eletromobilidade
A articulação começou com uma reunião promovida pelo próprio Ciesp São Bernardo, batizada de “Veículos Eletrificados: Desafios e Oportunidades para as Indústrias”, que juntou empresários, lideranças setoriais e representantes de diferentes segmentos da economia regional. O objetivo do encontro foi debater os impactos da eletromobilidade na competitividade industrial da região, de acordo com o Diário do Grande ABC. Na ocasião, o presidente do Instituto Brasileiro de Eletromobilidade (Ibemob), Val Arraes, afirmou que o Grande ABC, por sua tradição industrial e vocação automotiva, tem diante de si uma oportunidade real de protagonismo nesse novo ciclo tecnológico.
O diretor do Ciesp São Bernardo, Mauro Miaguti, foi além e detalhou o raciocínio por trás da proposta: segundo ele, a transição para veículos híbridos e elétricos exige integração entre cadeias produtivas, inovação e capacidade de articulação entre diferentes atores sociais, conforme relatado pelo jornal. A entidade já projeta o lançamento de um projeto-piloto e afirma que, no mês seguinte à reunião, apresentaria as primeiras ações preliminares e os membros que vão compor o comitê. Trata-se, portanto, de um movimento ainda em fase inicial, mas que sinaliza uma tentativa organizada de a região não repetir o que aconteceu com outros polos industriais que perderam competitividade por não acompanhar mudanças tecnológicas no tempo certo.
O que está em jogo para trabalhadores e empresas da região
A urgência do debate tem uma explicação direta: a frota eletrificada brasileira já ultrapassa 600 mil veículos, um volume que passou a demandar mão de obra qualificada, peças específicas, serviços de manutenção especializados e soluções ligadas a baterias, um mercado que a própria entidade classifica como estratégico. Para uma região que historicamente formou gerações de trabalhadores especializados em motores a combustão, montagem de carrocerias e autopeças tradicionais, a chegada de uma cadeia produtiva baseada em eletrônica embarcada e componentes de bateria representa tanto um risco de obsolescência de certas funções quanto uma oportunidade de qualificação em áreas ainda pouco exploradas localmente.
É justamente por isso que a proposta do Ciesp inclui a participação de universidades e centros de formação profissional desde o início das discussões, e não apenas como uma etapa posterior de adaptação. A ideia é que o comitê funcione como espaço permanente de diálogo entre quem fabrica, quem forma mão de obra e quem pesquisa novas tecnologias, evitando que a transição aconteça de forma desorganizada. Para trabalhadores do setor automotivo do ABC, o resultado prático desse esforço só poderá ser medido nos próximos meses, quando as ações preliminares do comitê forem de fato apresentadas e, principalmente, quando ficar claro se elas se traduzirão em novos investimentos das montadoras já instaladas na região ou na atração de fabricantes voltados exclusivamente à mobilidade elétrica.
A movimentação do Ciesp São Bernardo ainda está em estágio de articulação, sem cronograma público detalhado nem compromissos formais assumidos pelas montadoras da região. Mesmo assim, o simples fato de o setor produtivo local reconhecer a eletromobilidade como prioridade estratégica já sinaliza uma mudança de postura em relação a ciclos anteriores de transformação tecnológica. Os próximos meses devem mostrar se essa articulação avança para ações concretas, como parcerias com universidades e programas de qualificação, ou se permanece restrita ao campo do discurso institucional, algo que trabalhadores e empresários da região acompanham de perto.
Fonte: Diário do Grande ABC




