Linha 10-Turquesa recebe R$ 97 milhões em obras: o que muda para o passageiro do Grande ABC
CPTM assina contrato para modernizar as estações Santo André e Mauá, mas moradores da região ainda esperam uma resposta sobre o futuro da linha.
Quem depende da Linha 10-Turquesa para ir ao trabalho todos os dias já perdeu a conta de quantas vezes ouviu falar em “modernização” sem sentir diferença no trajeto. Agora, um novo contrato assinado pela Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) promete investimentos concretos: R$ 97 milhões para reformar as estações Santo André e Mauá, construídas ainda na década de 1970 pela extinta Rede Ferroviária Federal. A obra ficou a cargo do Consórcio LK-JZ, formado pelas empresas Lopes Kalil Engenharia e J.Z. Engenharia, conforme informou a Revista Ferroviária. A dúvida que fica no ar, porém, é simples: essa reforma pontual resolve o problema de fundo de uma linha que carrega quase 480 mil passageiros por dia, ou é apenas mais um capítulo de um processo de modernização que já se arrasta há anos?
O que está previsto para as estações do ABC
O contrato com o Consórcio LK-JZ prevê a instalação de novos equipamentos e recursos de acessibilidade nas estações Santo André e Mauá, adequando as estruturas às normas vigentes. Trata-se de intervenções pontuais, mas relevantes, já que as duas estações receberam poucas mudanças desde que foram construídas, segundo aponta a Revista Ferroviária. A companhia destacou ainda que a Linha 10-Turquesa se tornará o principal foco das ações de modernização a partir de julho, quando a CPTM deixará de operar outras três linhas de passageiros em São Paulo, conforme o mesmo levantamento.
Esse movimento de concentração de esforços em uma única linha não é aleatório. A Linha 10-Turquesa liga a região central da capital paulista até Rio Grande da Serra, passando por Santo André, São Caetano, Mauá e Ribeirão Pires, e é hoje a única linha da CPTM que permanece sob controle estatal integral. Para o morador do Grande ABC, isso significa que qualquer decisão sobre o ritmo das obras, sobre a frota disponível e sobre eventuais atrasos passa a depender diretamente da gestão pública, sem intermediação de uma concessionária privada, ao menos por enquanto.
O impasse da frota antiga que gerou revolta entre os usuários
Antes de qualquer anúncio de obra, a linha já havia sido palco de um episódio que mobilizou passageiros e a imprensa regional. Em março, a CPTM começou a substituir trens mais novos, com cerca de seis anos de uso, por composições de até 18 anos, realocando as unidades recentes para outras linhas recém-concedidas à iniciativa privada. A mudança, que deveria ocorrer de forma gradual até maio, gerou reclamações generalizadas: usuários relataram desconforto, superlotação e falhas no ar-condicionado, segundo reportagem do Diário do Grande ABC.
A pressão surtiu efeito. Em 10 de abril, o governo estadual recuou da decisão e determinou a realocação dos trens novos de volta à Linha 10-Turquesa, embora a Secretaria de Parcerias em Investimentos não tenha detalhado prazos exatos para a permanência dessas composições no trecho, de acordo com o Diário do Grande ABC. A secretaria também reforçou, na ocasião, que toda a frota da CPTM está em condições adequadas de uso e segurança, e que a vida útil de um trem gira em torno de 35 anos quando as manutenções são feitas corretamente. Ainda assim, o episódio deixou claro que decisões administrativas sobre a frota afetam diretamente a rotina de quem mora na região, e que a mobilização dos passageiros pode, sim, reverter medidas impopulares.
Por que o futuro da concessão ainda é uma incógnita para o ABC
O pano de fundo de toda essa movimentação é o debate sobre a concessão da Linha 10-Turquesa à iniciativa privada. O processo, que chegou a ter leilão previsto para este ano, segue em análise técnica pela Secretaria de Parcerias em Investimentos, que incorpora sugestões ao edital e mantém conversas com empresas interessadas. Segundo o portal especializado Metrô CPTM, o governador Tarcísio de Freitas afirmou que a concessão ficaria para 2026, com um pacote de investimentos projetado em R$ 14 bilhões e previsão de aquisição de até 21 novas composições pela futura concessionária.
Mais recentemente, contudo, o discurso oficial mudou de tom. Ainda de acordo com o Metrô CPTM, o governo estadual indicou que o foco imediato passaria a ser a modernização da linha pela própria CPTM antes de qualquer transferência à iniciativa privada, com reformas nas estações Santo André e Mauá, reconstrução da futura estação ABC e implantação de uma nova estação em Rio Grande da Serra. Até o momento, no entanto, não há definição oficial sobre o prazo da concessão nem sobre quanto tempo os trens atuais continuarão operando no trecho, o que mantém o usuário do Grande ABC em um cenário de expectativa sobre qual caminho a linha vai seguir nos próximos anos.
Para quem usa a Linha 10-Turquesa diariamente, o anúncio de novas obras é uma notícia bem-vinda, mas dificilmente encerra a desconfiança acumulada depois de anos de promessas de modernização. A reforma das estações Santo André e Mauá é um passo concreto, com contrato assinado e empresa definida, o que a diferencia de outros planos que ainda existem apenas no papel. Ainda assim, o episódio da troca de trens em abril mostrou que decisões podem mudar de rumo rapidamente, e que o cronograma de longo prazo da linha continua sujeito a negociações políticas e técnicas que escapam ao controle direto do passageiro. Acompanhar os próximos anúncios da CPTM e da Secretaria de Parcerias em Investimentos será a única forma de saber se a região finalmente terá a modernização que espera há tanto tempo.
Fontes: Revista Ferroviária | Diário do Grande ABC | Metrô CPTM




