Indústria brasileira acelera uso de inteligência artificial: o que isso significa para as fábricas do ABC
Levantamento do IBGE mostra salto de 163% no número de empresas que adotaram IA em processos industriais entre 2022 e 2024.
Para quem trabalha em uma fábrica do Grande ABC, a chegada da inteligência artificial ao chão de produção costuma gerar uma dúvida bem concreta: essa tecnologia vem para substituir postos de trabalho ou para criar novas oportunidades dentro das próprias plantas industriais? Um levantamento do IBGE, obtido por meio da Pesquisa de Inovação (Pintec) e divulgado pelo portal InfoEng, mostra que a adoção de IA em processos industriais no Brasil saltou de 1.619 para 4.261 empresas entre 2022 e 2024, um crescimento de 163%. A pesquisa incluiu uma amostra de 1.731 indústrias de um universo de 10.167 companhias com cem ou mais funcionários, e os dados ajudam a entender por que a região automotiva e metalúrgica do ABC também vem sendo pressionada a se atualizar tecnologicamente.
Onde a inteligência artificial já está sendo usada nas fábricas
Segundo o levantamento do IBGE citado pelo InfoEng, a adoção de inteligência artificial varia conforme o porte da empresa: o índice chega a 36,1% entre companhias com 100 a 249 funcionários, sobe para 42,5% nas que têm de 250 a 499 empregados e alcança 57,5% entre as que possuem 500 ou mais colaboradores. Isso significa que, quanto maior a estrutura industrial, maior a capacidade de investir em automação inteligente, o que tende a beneficiar primeiro as grandes montadoras e fornecedoras instaladas no ABC antes de chegar às empresas de menor porte da cadeia produtiva regional.
Os setores que mais utilizam IA, de acordo com a mesma pesquisa, são administração (87,9%), comercialização (75,2%), equipamentos de informática, eletrônicos e ópticos (72,3%), máquinas e materiais elétricos (59,3%) e produtos químicos (58%), áreas que têm forte presença na economia do Grande ABC. O gerente de pesquisas temáticas do IBGE, Flávio José Marques Peixoto, explicou ao InfoEng que a adoção tecnológica muitas vezes é exigida por fornecedores e clientes como condição para garantir integração logística e manutenção ao longo da cadeia produtiva, o que ajuda a entender por que empresas da região automotiva sentem essa pressão de forma mais direta do que outros setores da economia.
O que a formação técnica local está fazendo para acompanhar essa mudança
A resposta a esse movimento também aparece no campo da educação. O Centro Universitário Fundação Santo André (FSA) passou a integrar o ensino de inteligência artificial desde os primeiros semestres dos cursos de engenharia, segundo informações da própria instituição. Na prática, isso significa que estudantes têm contato com ferramentas e discussões sobre IA como recurso de aprendizagem e apoio a projetos antes mesmo de chegarem ao mercado de trabalho, em vez de esperar até o fim da graduação para lidar com o tema.
A instituição também aposta em iniciativas como um hub de tecnologia e programas de empregabilidade, buscando aproximar estudantes de empresas industriais, tecnológicas, químicas e automotivas da região, de acordo com material divulgado pela FSA. Esse tipo de movimento reflete uma tentativa de alinhar a formação profissional local ao ritmo de transformação que já vem ocorrendo dentro das fábricas, oferecendo aos futuros engenheiros da região uma base mais próxima da realidade que vão encontrar em empresas que já operam com automação inteligente, manutenção preditiva e sistemas conectados de produção. Para quem hoje já trabalha na indústria e não passou por essa formação recente, o desafio de qualificação profissional tende a ser maior, e depende diretamente de programas de requalificação oferecidos pelas próprias empresas ou por entidades como o Ciesp.
O avanço da inteligência artificial na indústria brasileira não é um fenômeno distante das fábricas do Grande ABC, pelo contrário, a região concentra justamente os setores automotivo, metalúrgico e químico apontados pelo IBGE como os que mais adotam essa tecnologia. Para os trabalhadores da região, o cenário aponta para uma convivência cada vez maior com sistemas automatizados, o que reforça a importância de acompanhar programas de qualificação oferecidos por universidades locais e entidades de classe. O ritmo dessa transformação, no entanto, ainda depende do porte de cada empresa e do quanto a cadeia produtiva regional conseguirá se adaptar sem deixar trabalhadores de fora desse processo.
Fontes: InfoEng | Fundação Santo André (FSA)




