Rodrigo Balassiano, diretor da ID CTVM, enxerga na cadeia do frio uma nova alternativa de crédito estruturado
Operadores de armazenagem frigorificada que atendem frigoríficos, laticínios e distribuidores de hortifrúti utilizam contratos de longo prazo com clientes industriais como lastro para financiar a expansão de câmaras frias e a modernização de sistemas de refrigeração
A cadeia do frio, conjunto de estruturas responsáveis por manter produtos perecíveis sob temperatura controlada desde a produção até o consumo final, ganhou relevância crescente no Brasil à medida que o país consolidou sua posição como exportador de proteína animal e ampliou a distribuição de alimentos congelados e resfriados para o mercado interno. Operadores especializados em armazenagem frigorificada, que oferecem capacidade de estocagem sob temperatura controlada para frigoríficos, laticínios, distribuidores de hortifrúti e redes de varejo alimentar, enfrentam um desafio recorrente de capital para sustentar a expansão de câmaras frias e a modernização de sistemas de refrigeração, cujo investimento inicial costuma ser elevado em razão do custo de equipamentos e da estrutura de isolamento térmico exigida.
Fundos de investimento em direitos creditórios lastreados em contratos de armazenagem frigorificada surgem como alternativa para financiar essa expansão, permitindo que operadores antecipem parte da receita prevista em contratos de longo prazo firmados com clientes industriais, direcionando os recursos para a construção de novas câmaras frias ou para a atualização tecnológica de unidades já existentes.
Contratos de longo prazo com clientes industriais sustentam a previsibilidade da receita
Diferentemente de operações de armazenagem geral, nas quais contratos costumam ter prazo mais curto e maior rotatividade de clientes, operadores de armazenagem frigorificada voltados a frigoríficos e laticínios costumam firmar contratos de longo prazo, muitas vezes atrelados a volumes mínimos de estocagem mensal, o que confere maior previsibilidade ao fluxo de receita utilizado como lastro em uma operação de crédito estruturado. Essa característica aproxima o perfil de risco desse setor do observado em operações de locação industrial de longo prazo, ainda que a intensidade energética da operação frigorificada introduza uma variável adicional à análise.
A ID CTVM atua como administradora fiduciária e custodiante de fundos estruturados voltados a diferentes segmentos da economia real, o que inclui operações lastreadas em contratos de armazenagem frigorificada, aplicando a esses ativos processos de conciliação em tempo real e auditoria de lastro utilizados em fundos de outros segmentos de infraestrutura logística sob sua administração. Habilitada pela Comissão de Valores Mobiliários e pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais, a companhia soma a esse segmento a experiência acumulada em mais de 550 fundos ativos de diferentes perfis.
Custo energético concentra a atenção da análise de risco
Para Rodrigo Balassiano, diretor da ID CTVM, o consumo de energia elétrica necessário para manter câmaras frias em temperatura controlada é um dos fatores que mais diferenciam a análise de risco desse setor em relação a outras operações de armazenagem industrial.
“Uma câmara frigorificada tem uma estrutura de custo bastante distinta de um galpão logístico convencional, na qual o consumo de energia elétrica representa uma parcela relevante da despesa operacional do negócio. Isso exige que o administrador fiduciário avalie não apenas o histórico de receita do operador, mas também sua exposição a variações na tarifa de energia e a eventual dependência de contratos específicos de fornecimento, fatores que impactam diretamente a margem da operação e, por consequência, a capacidade de honrar os compromissos assumidos junto ao fundo”, afirma o executivo.
Operadores que investem em sistemas de monitoramento remoto de temperatura e em automação predial voltada à eficiência energética tendem a apresentar margem operacional mais estável do que unidades com equipamentos mais antigos, diferença que administradores fiduciários passaram a considerar na análise qualitativa de cada operação lastreada nesse setor.
Concentração de clientes e localização influenciam a qualidade do recebível
Operadores de armazenagem frigorificada que concentram parcela relevante de sua receita em poucos clientes industriais de grande porte, como frigoríficos exportadores, apresentam perfil de risco distinto de operações com uma base mais diversificada de contratantes, uma vez que a saúde financeira de cada cliente influencia diretamente a qualidade do recebível cedido ao fundo. Essa concentração por cliente é acompanhada de forma semelhante ao que já ocorre em outros setores pulverizados financiados por meio de crédito estruturado, ainda que a especificidade técnica da armazenagem frigorificada exija conhecimento setorial adicional por parte do administrador fiduciário.
A localização de cada unidade de armazenagem em relação a portos, rodovias de escoamento e polos de produção agropecuária também influencia diretamente sua atratividade comercial e, por consequência, a previsibilidade da receita projetada, uma vez que unidades bem posicionadas tendem a manter taxa de ocupação mais estável ao longo do tempo do que operações distantes das principais rotas logísticas do agronegócio brasileiro.
Perspectivas para o crédito estruturado na cadeia do frio
Com o Brasil consolidando sua posição como exportador relevante de proteína animal e a demanda por alimentos congelados e resfriados mantendo trajetória de crescimento no mercado interno, a tendência é que operações de crédito estruturado lastreadas em contratos de armazenagem frigorificada ganhem espaço complementar dentro da indústria de FIDCs voltada à infraestrutura logística. Para administradores fiduciários especializados nesse tipo de operação, compreender a exposição energética e a concentração de clientes de cada operador deve seguir como um fator relevante para sustentar a confiança de investidores nesse segmento da economia real.
Sobre a ID CTVM
A ID CTVM é uma instituição especializada em infraestrutura para o mercado de capitais, com serviços de administração fiduciária, custódia, escrituração, controladoria e distribuição de fundos de investimento. Fundada em 2020, a companhia reúne atualmente mais de 550 fundos e mais de R$ 50 bilhões sob administração e custódia, com presença relevante em estruturas como FIDCs, FIPs e FIIs. Combinando tecnologia, governança, conhecimento regulatório e eficiência operacional, a ID oferece suporte a gestores, investidores, empresas e demais participantes do mercado, contribuindo para operações mais seguras, eficientes e transparentes.




